Há uma pergunta que quase todos os estudantes fazem quando chegam ao capítulo da metodologia: "Que tipo de pesquisa é a minha?"
E sabe o que acontece a seguir? A maioria escolhe um tipo qualquer, escreve no trabalho, e reza para que o orientador não questione. Esse é exactamente o caminho para levar a monografia de volta com correcções.
A escolha do tipo de pesquisa não é uma formalidade. Ela define como vai recolher dados, como vai analisá-los e, no fundo, como vai responder ao seu problema de investigação. Neste artigo vemos os principais tipos de pesquisa científica utilizados em TCCs e monografias, com exemplos concretos para que consiga identificar qual se aplica ao seu caso. Veja Como Fazer Referências Bibliográficas em APA na Monografia (7ª Edição)
Primeiro, perceba que a classificação tem três dimensões
Este é o ponto em que muita gente se perde. Os tipos de pesquisa não são uma lista única são três dimensões diferentes que se cruzam. Gil (2017) e Marconi e Lakatos (2017) convergem nesta ideia: uma pesquisa classifica-se simultaneamente quanto aos seus objetivos, quanto à sua abordagem e quanto aos seus procedimentos técnicos.
Na prática, isso significa que o seu TCC pode ser, ao mesmo tempo, uma pesquisa descritiva (objetivo), de abordagem quantitativa e com procedimento de levantamento (questionário). As três classificações coexistem.
Vamos ver cada uma delas.
Dimensão 1: Quanto aos Objectivos
Pesquisa Exploratória
É o ponto de partida quando se sabe pouco sobre o tema. O objectivo é ganhar familiaridade com o assunto, explorar o terreno, levantar hipóteses. Segundo Gil (2017), este tipo de pesquisa é especialmente útil quando o tema ainda é pouco estudado ou quando o investigador quer aprofundar a compreensão de um fenómeno antes de avançar para análises mais rigorosas.
Quando usar: Quando o seu problema de investigação é amplo e ainda não há muita literatura sobre ele no contexto moçambicano. Por exemplo: "Como os estudantes da UEM percepcionam o ensino à distância pós-pandemia?" se há poucos estudos locais sobre isso, a pesquisa exploratória faz sentido como ponto de partida.
Procedimentos mais comuns: entrevistas em profundidade, grupos focais, revisão bibliográfica.
Pesquisa Descritiva
Aqui o objectivo já é diferente: não explorar, mas descrever características de uma população, fenómeno ou situação. Não se pergunta porquê as coisas acontecem descreve-se como são.
É o tipo mais comum em TCCs de Ciências Sociais, Gestão e Educação em Moçambique. Marconi e Lakatos (2017) referem que a pesquisa descritiva trabalha com factos observados, registados e analisados sem que o investigador os manipule.
Quando usar: Quando quer caracterizar um grupo ou situação. Exemplo: "Qual é o perfil empreendedor dos jovens universitários de Maputo?" aqui está a descrever, não a explicar causas.
Pesquisa Explicativa
É o nível mais profundo. Não basta descrever, quer-se explicar as causas de um fenómeno, perceber o porquê. Na minha experiência como professor, este é o tipo que os estudantes mais declaram ter e menos conseguem justificar adequadamente. É um nível de exigência maior, porque implica estabelecer relações de causa e efeito.
Quando usar: Quando o seu problema de investigação contém expressões como "impacto de", "influência de", "efeito de". Exemplo: "Qual o impacto da liderança transformacional na motivação dos funcionários do sector público em Moçambique?"
Dimensão 2: Quanto à Abordagem
Pesquisa Qualitativa
Trabalha com significados, percepções, experiências. Os dados não são números são palavras, discursos, comportamentos interpretados. Creswell (2014) descreve a pesquisa qualitativa como aquela em que o investigador procura compreender o mundo a partir da perspectiva dos participantes, no seu contexto natural.
Instrumentos típicos: entrevistas, observação participante, análise documental, grupos focais.
Exemplo: Analisar as percepções dos professores do ensino secundário sobre a implementação do novo currículo em Moçambique.
Um aviso importante: qualitativo não significa "mais fácil" por não ter estatística. A análise de dados qualitativos, especialmente a análise de conteúdo exige rigor e tempo consideráveis.
Pesquisa Quantitativa
Trabalha com números, medições, estatísticas. O objectivo é quantificar um fenómeno e generalizar os resultados para uma população maior. É aqui que o SPSS entra em cena e é por isso que os vídeos sobre SPSS têm tanto engajamento: os estudantes que escolhem esta abordagem precisam mesmo de saber analisar os dados.
Instrumentos típicos: questionários com escalas (Likert é o mais comum), testes padronizados, análise de dados secundários.
Exemplo: Medir o nível de satisfação dos clientes do BCI Moçambique através de questionário aplicado a 200 clientes.
Pesquisa de Métodos Mistos
Combina as duas abordagens no mesmo estudo. Creswell e Clark (2013) desenvolveram amplamente este design, que se justifica quando nem os dados qualitativos nem os quantitativos, isoladamente, respondem ao problema de investigação.
Repare bem nisto: métodos mistos não é "um pouco de cada porque não me decidi". É uma estratégia deliberada, com uma lógica clara de como as duas abordagens se complementam. Em TCCs de licenciatura, é menos comum e quando aparece sem justificação sólida, o orientador questiona.
Dimensão 3: Quanto aos Procedimentos Técnicos
Esta dimensão responde à pergunta: como vai recolher os seus dados?
Pesquisa bibliográfica — baseia-se em material já publicado: livros, artigos, dissertações. Está presente em praticamente todos os TCCs como parte da revisão de literatura.
Pesquisa documental — semelhante à bibliográfica, mas usa fontes primárias que ainda não foram analisadas: relatórios internos de empresas, actas, registos históricos, legislação.
Pesquisa de campo — o investigador vai ao local onde o fenómeno ocorre para recolher dados directamente. Muito comum em Moçambique, especialmente em estudos sobre comunidades, empresas ou instituições locais.
Levantamento (survey) — aplicação de questionários a uma amostra representativa de uma população. É o procedimento que mais se associa ao uso do SPSS.
Estudo de caso — análise aprofundada de um caso específico: uma empresa, uma escola, uma comunidade, um projecto. Gil (2017) salienta que o estudo de caso permite conhecer em profundidade o como e o porquê de situações complexas. É muito usado em cursos de Gestão e Administração Pública.
Pesquisa experimental — o investigador manipula variáveis para observar efeitos. Mais comum nas ciências exactas e da saúde do que nas ciências sociais.
Como saber qual combina com o seu TCC
Na prática, a escolha parte sempre do seu problema de investigação. Faça estas três perguntas:
1. O que sei sobre o tema? Se sabe pouco → exploratória. Se já há literatura suficiente e quer descrever → descritiva. Se quer explicar causas → explicativa.
2. Os meus dados serão palavras ou números? Palavras, percepções, experiências → qualitativa. Números, percentagens, médias → quantitativa. Ambos, com justificação clara → métodos mistos.
3. Como vou recolher os dados? Questionários a uma amostra → levantamento. Análise de documentos internos → documental. Entrevistas e observação num contexto específico → estudo de caso ou pesquisa de campo.
As respostas a estas três perguntas dão-lhe a classificação completa da sua metodologia.
Um exemplo de como escrever no TCC
Para que veja como isto se articula na prática, aqui vai um exemplo de parágrafo de metodologia bem construído:
"Quanto aos objectivos, a presente pesquisa é de natureza descritiva, uma vez que visa caracterizar o perfil de gestão financeira das pequenas empresas do sector informal em Maputo (Gil, 2017). Relativamente à abordagem, adopta-se o método quantitativo, com aplicação de questionário a uma amostra de 120 empresários. Quanto aos procedimentos técnicos, trata-se de um levantamento (survey), complementado por pesquisa bibliográfica para fundamentação teórica (Marconi & Lakatos, 2017)."
Este parágrafo cobre as três dimensões, cita os autores de referência e justifica cada escolha. É isto que o seu orientador quer ver.
A metodologia não é uma secção para preencher é o esqueleto de toda a investigação. Quando está mal definida, os capítulos seguintes ficam sem sustentação. Quando está clara, o resto do trabalho flui com muito mais facilidade.
Se ainda tem dúvidas sobre qual tipo de pesquisa se aplica ao seu caso específico, deixe nos comentários o seu tema e o seu problema de investigação — e ajudo a identificar.